Mensagem do 6º aniversário da Fértil Cultural

Hoje celebramos 6 anos de existência, persistência, resistência, resiliência e outras coisas mais que não nos fazem desistir.

Aquilo que parecia aos olhos de alguns, e ainda parece aos olhos de outros, uma miragem, hoje é um acto de coragem. A Fértil Cultural começa agora a mostrar a sua maturidade e capacidade na criação artística, no trabalho com a comunidade e na educação, os três eixos de acção a que nos propusemos desenvolver no dia 26 de Abril de 2010.

Não baixamos os braços quando nos disseram “não”, e de cada “não” recebido transformarmo-lo num novo “sim”, em outros projectos, com outros parceiros, com outras pessoas que compreendem o valor do nosso trabalho e pretendem trabalhar ao nosso lado.

O ano de 2016 está a ser um ano de viragem para a Fértil Cultural. Está a ser um ano de novas ideias, novas colaborações e até novas formas de trabalhar. De hoje a um ano esperamos estar a escrever-vos de novo, exigindo de nós um novo acto de coragem para enfrentar novas dificuldades. Também pretendemos escrever mostrando-vos que conseguimos atravessar mais uma etapa que agora se avizinha.

Este ano não celebramos com uma festa ou espectáculo, mas celebramos em completa unicidade com cada um de vós que nos tem apoiado e acreditado durante todo este tempo.

Bem hajam pelo vossa apoio.

A direcção artística,

Neusa Fangueiro Rui Alves Leitão

Mensagem para o Dia Mundial do Teatro 2016 por Anatoli Vassiliev

anatolî_vassiliev
Será que precisamos de teatro?
Esta é a questão que milhares de profissionais dececionados com o teatro, e que milhões de outras pessoas que estão cansados dele, perguntam a si próprios.
Para que é que precisamos dele?
Nos anos em que a cena é tão insignificante quando comparada com os bairros das cidades e capitais do mundo, onde estão em cena as autênticas tragédias da vida real.
O que é para nós?
Galerias e balcões dourados em salas de espectáculo, braços de cadeiras aveludadas, bastidores sujos, vozes de actores bem polidas, ou vice-versa, algo que pode ser aparentemente diferente: caixas negras, manchadas com lama e sangue, com um amontoado de corpos nus dentro.
O que é capaz de nos dizer?
Tudo!
O Teatro pode dizer-nos tudo.
Como os deuses habitam nos céus, e como os prisioneiros definham em caves subterrâneas esquecidas, e como as paixões nos podem elevar, e como o amor nos pode abater, e como ninguém precisa de uma boa pessoa neste mundo, e como a mentira reina, e como as pessoas vivem em apartamentos, enquanto crianças murcham em campos de refugiados, e como todos eles terão que voltar ao deserto, e como, dia após dia, somos forçados a nos separar dos nossos entes queridos, – o teatro pode dizer-nos tudo.
O teatro tem sido, e manter-se-à eterno.
E agora, nestes últimos cinquenta ou setenta anos, é particularmente necessário. Porque se observamos como está a arte popular, vemos imediatamente aquilo que apenas o teatro nos está a dar – uma palavra de boca a boca, um olhar de olho a olho, um gesto de mão a mão, e de corpo a corpo. Não precisa de intermediários para trabalhar junto dos seres humanos, -constitui a parte mais transparente da luz, não pertence ao sul, ao norte, este ou oeste, – oh não, é a própria essência da luz, a brilhar nos quatro cantos do mundo, imediatamente reconhecido por qualquer pessoa, quer seja hostil ou amigável para com ele.
E nós precisamos de teatro que permanece sempre diferente, nós precisamos de teatro de diferentes géneros.
Mesmo assim, penso que de todas as possiveis formas e contornos do teatro, são as suas formas mas arcaicas que terão atualmente uma maior procura. O teatro de formas rituais não se deve opor artificialmente ao das nações ditas “civilizadas”. A cultura secular está cada vez mais emasculada, a chamada “cultura informativa” gradualmente substitui e faz desaparecer entidades simples, bem como a nossa esperaça de as encontrar um dia.
Mas eu agora vejo-o claramente: o teatro está a escancarar as suas portas. Admissão livre para todos.
Para o inferno com os aparelhos e computadores – vão simplesmente ao teatro, ocupem filas inteiras nas plateias e nas galerias, ouçam o mundo e vejam as imagens vivas! – é o teatro na vossa frente, não o negligenciem e não percam uma oportunidade de participarem nele – talvez seja a oportunidade mais preciosa que partilhamos nas nossas vidas apressadas e egocêntricas.
Precisamos de todos os géneros de teatro.
Existe apenas um teatro que seguramente não é necessário para ninguém – refiro-me ao teatro do jogo político, o teatro das “armadilhas” políticas, o teatro dos politicos, o fútil teatro da política. O que nós seguramente não precisamos é do teatro do terror diário – quer seja individual ou colectivo, o que nós não precisamos é do teatro dos corpos e do sangue nas ruas e praças, nas capitais e nas provincias, o teatro falso das batalhas entre religões e grupos étnicos…
Tradução do Russo para Inglês: Natalia Isaeva
Tradução para Português: Bruno Daniel Gomes, com revisão de Fernando Rodrigues
Fonte: FPTA – Federação Portuguesa de Teatro